O cenário político do Distrito Federal foi agitado recentemente com o protocolo de um pedido de impeachment contra o governador Ibaneis Rocha. A iniciativa partiu de partidos de oposição e surge na esteira da citação do chefe do Executivo local pelo banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, em inquéritos que apuram uma controversa tentativa de venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). A crise, que já resultou em sérias repercussões financeiras e investigativas, coloca o governador sob intenso escrutínio.
As Acusações da Oposição e o Pedido de Impeachment
As legendas PSB-DF, Cidadania-DF e PSOL foram as responsáveis por formalizar os pedidos de afastamento de Ibaneis Rocha. O cerne das acusações reside em supostos crimes de responsabilidade, diretamente ligados à gestão do governo distrital em operações envolvendo o BRB, um banco público. Os partidos apontam uma conduta que qualificam como “atuação temerária” por parte do Executivo, o que, em sua visão, teria gerado risco substancial ao erário e violado princípios fundamentais da administração pública.
Entre os pontos levantados pela oposição e que embasam o pedido de impeachment, destacam-se a suposta aquisição de títulos financeiros de baixa qualidade e origem duvidosa, a criação de dívidas sem a devida previsão orçamentária, negociações com o banqueiro Daniel Vorcaro que careceriam de transparência e a possível interferência indevida do governador em decisões internas estratégicas do BRB.
Detalhes da Investigação e Envolvimento do Banco Master
As investigações, conduzidas em múltiplas frentes pelo Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF), com o acompanhamento do Banco Central (BC), focam em uma complexa teia de transações. Há suspeitas de que o Banco Master teria vendido carteiras de crédito inexistentes, avaliadas em cerca de R$ 12,2 bilhões, ao BRB. Essa manobra teria como objetivo principal evitar a falência da instituição privada, que enfrentava uma grave crise de liquidez. O desfecho dessas irregularidades culminou na liquidação do Banco Master pelo Banco Central em novembro do ano passado.
O impacto financeiro para o BRB é estimado em um rombo de R$ 4 bilhões. O Banco Central, inclusive, teria determinado que o BRB constitua um provisionamento (reserva destinada a cobrir potenciais perdas) de, no mínimo, R$ 2,6 bilhões. Documentos investigativos, incluindo depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro à PF em 30 de dezembro, revelaram que ele teria conversado “algumas vezes” com Ibaneis Rocha sobre as negociações. Essa informação veio a público por meio de veículos de imprensa, após acesso ao depoimento determinado pelo ministro do STF, Dias Toffoli.
A Defesa do Governador Ibaneis Rocha
Em resposta às acusações e à citação em inquérito, o governador Ibaneis Rocha nega veementemente qualquer envolvimento direto nas operações questionadas. Em declarações à imprensa, ele afirmou que nunca discutiu a transação BRB–Master com Daniel Vorcaro, ressaltando que todas as negociações foram conduzidas por Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB. Ibaneis confirmou ter participado de encontros sociais com o banqueiro, incluindo um almoço, mas reiterou que nessas ocasiões não foram tratados assuntos relacionados aos bancos.
O governador enfatizou que “tudo era conduzido” pelo ex-presidente do BRB, que foi posteriormente afastado e demitido após a deflagração das operações policiais. Ele lamentou ter “confiado demais” em Paulo Henrique Costa e assegurou que, nos quatro encontros que teve com Vorcaro, não abordou temas ligados ao BRB-Master.
Desdobramentos e Perspectivas das Apurações
A crise do Banco Master e suas ramificações no BRB desencadearam uma série de ações e desdobramentos. Durante o período investigado, o BRB teria injetado montantes significativos no Banco Master, totalizando R$ 16,7 bilhões, transferências que estão sob análise por suspeita de gestão fraudulenta. Em novembro, uma operação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público levou ao afastamento e posterior demissão de Paulo Henrique Costa da presidência do BRB, evidenciando falhas graves de governança e possíveis ilícitos administrativos.
Além das apurações dos órgãos policiais e do Banco Central, a nova gestão do BRB e uma auditoria independente estão examinando as transações, embora ainda não tenham divulgado conclusões oficiais. Ex-executivos de ambas as instituições foram intimados a prestar depoimento nos próximos dias de janeiro e fevereiro, sinalizando o aprofundamento das investigações sobre a tentativa de aquisição de uma fatia relevante do Banco Master pelo BRB, que contou com o apoio do governo do Distrito Federal mas foi barrada pelo Banco Central.
Conclusão
A situação em torno do governador Ibaneis Rocha e o caso Banco Master/BRB configura um complexo imbróglio jurídico e político, com sérias implicações para a administração pública do Distrito Federal. Os pedidos de impeachment, as investigações em curso por diversas esferas e o impacto financeiro estimado no BRB mantêm o cenário de incerteza. Enquanto a justiça prossegue com seus trâmites e novos depoimentos são aguardados, a pressão sobre o chefe do executivo local se intensifica, marcando um período de grande tensão na política brasiliense.

