Em um artigo de impacto publicado neste domingo (18) no renomado jornal The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva articulou uma contundente crítica às recentes ações dos Estados Unidos em território venezuelano. Ao classificar os bombardeios e a suposta 'captura' do presidente da Venezuela no início de janeiro como um 'capítulo lamentável', Lula utilizou a plataforma internacional para expressar sua profunda preocupação com a crescente erosão do direito internacional e o enfraquecimento da ordem multilateral estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial.
Ameaças à Autoridade da ONU e à Paz Global
O presidente brasileiro não poupou críticas ao que descreveu como ataques recorrentes de grandes potências à autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) e, em particular, de seu Conselho de Segurança. Lula argumentou que a paz, a segurança e a estabilidade globais são gravemente ameaçadas quando o uso da força, que deveria ser uma exceção, se transforma em regra para a resolução de disputas. Sua análise aponta para um cenário de desequilíbrio onde os princípios que regem as relações internacionais são constantemente desafiados.
Os Perigos da Aplicação Seletiva de Normas Internacionais
Em sua argumentação, Lula enfatizou que a aplicação seletiva das normas internacionais mina a integridade do sistema global. Ele advertiu que, quando os acordos e leis são seguidos apenas de forma parcial e conveniente, instala-se um estado de 'anomia'. Este enfraquecimento não afeta apenas os Estados individualmente, mas compromete a capacidade de todo o sistema internacional de funcionar de maneira justa e eficaz, inviabilizando a construção de sociedades verdadeiramente livres, inclusivas e democráticas baseadas em regras coletivamente acordadas.
Defesa da Soberania Regional e Rejeição ao Unilateralismo
Ainda que reconheça a necessidade de responsabilizar chefes de Estado ou de governo por ações que atentem contra a democracia e os direitos fundamentais, o presidente Lula ressaltou que nenhum Estado tem a prerrogativa de se arrogar o direito de 'fazer justiça' unilateralmente. Ele alertou que tais ações ameaçam a estabilidade mundial, desorganizam o comércio e os investimentos, intensificam o fluxo de refugiados e diminuem a capacidade dos governos de combater o crime organizado e outros desafios transnacionais complexos.
Uma particular preocupação de Lula reside na aplicação dessas práticas à América Latina e ao Caribe, uma região que busca a paz através da igualdade soberana das nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos. O presidente fez questão de destacar que, em mais de dois séculos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul enfrenta um ataque militar direto dos Estados Unidos, o que considera um precedente alarmante. Com mais de 660 milhões de habitantes, a região, em um mundo multipolar, tem seus próprios interesses e aspirações a defender, rejeitando a subserviência a empreendimentos hegemônicos em favor de uma doutrina que privilegie a construção de uma região próspera, pacífica e plural.
Visão para uma Agenda Regional Positiva e Cooperativa
Em seu artigo, Lula também delineou uma visão para a América Latina, defendendo a construção de uma agenda regional positiva, capaz de transcender diferenças ideológicas. Os objetivos incluem atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover a criação de empregos de qualidade, gerar renda e expandir o comércio tanto dentro da região quanto com parceiros externos. Para o presidente, a cooperação é um pilar fundamental para mobilizar os recursos necessários no combate à fome, à pobreza, ao tráfico de drogas e às mudanças climáticas, reforçando a importância da união para superar desafios comuns.
O Futuro da Venezuela e a Parceria Hemisférica
No que tange à Venezuela, Lula reiterou a crença inabalável de que o futuro do país deve permanecer exclusivamente nas mãos de seu povo. Ele defendeu que apenas um processo político inclusivo, liderado pelos próprios venezuelanos, poderá pavimentar o caminho para um futuro democrático e sustentável. Esta abordagem reflete a defesa do princípio da autodeterminação e da não-intervenção em assuntos internos de outras nações.
O presidente brasileiro também afirmou que o Brasil continuará a trabalhar em estreita colaboração com o governo e o povo venezuelanos, visando proteger a extensa fronteira compartilhada de mais de 1.300 quilômetros e aprofundar a cooperação bilateral em diversas frentes. Ao mesmo tempo, Lula destacou a importância da relação com os Estados Unidos, as duas democracias mais populosas do continente americano. Ele propôs que unir esforços em planos concretos de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho mais eficaz para superar os desafios que afligem todo o hemisfério, que, segundo ele, 'pertence a todos nós'.
A mensagem de Lula no The New York Times é, portanto, um apelo veemente por um retorno aos princípios do multilateralismo, respeito à soberania e cooperação como pilares para a paz e o desenvolvimento global. Ele reitera a necessidade de um sistema internacional que valorize a igualdade entre as nações e a construção de soluções coletivas para os complexos desafios do século XXI, em contraste com a perigosa senda do unilateralismo.

