A jornada de Isaline Attelly, uma criadora de conteúdo da Martinica, tomou um rumo profundamente significativo quando a pesquisa genealógica revelou uma ancestralidade direta com o Benin. Sua bisavó materna, uma vítima do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, nasceu no território que hoje corresponde ao país da África Ocidental. Essa descoberta não apenas resgatou uma parte perdida da história familiar de Attelly, mas a conectou a um inovador programa que visa acolher de volta descendentes da diáspora africana, oferecendo-lhes a cidadania beninense.
A iniciativa, intitulada "My Afro Origins" (Minhas Origens Afro), é um pilar central da visão do Presidente Patrice Talon para elevar o perfil internacional do Benin. O programa busca transformar a compreensão e a relação com o legado doloroso do tráfico transatlântico, convertendo-o em um elo de orgulho e pertencimento para aqueles cujas famílias foram violentamente desenraizadas.
Resgatando Raízes: O Programa "My Afro Origins"
O programa "My Afro Origins" representa uma ponte histórica e cultural, convidando descendentes de africanos escravizados a reconectarem-se com sua pátria ancestral. Para indivíduos como Isaline Attelly, a adesão a este programa transcende a mera formalidade legal; é um ato de fechamento de ciclo e de honra aos antepassados. "Para mim, é uma fonte de orgulho. Parece que minha jornada completou o círculo", declarou Attelly após sua cerimônia de naturalização, expressando a profunda satisfação de poder representar a história de sua família.
A iniciativa é um esforço consciente do governo beninense para reconhecer seu papel central no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, transformando um capítulo sombrio em um ponto de partida para a reconciliação e o fortalecimento de laços com a diáspora global. O objetivo é duplo: não só oferecer um caminho para a cidadania, mas também atrair turistas e investidores, posicionando o Benin como um destino cultural e histórico vital para todos os que buscam suas origens africanas.
Memória e Desenvolvimento: Projetos de Legado Histórico
A campanha de cidadania é complementada por uma série de projetos ambiciosos que visam dar vida e visibilidade à história da escravidão no Benin. Entre eles, destacam-se a construção de uma nova Porta sem Retorno em Ouidah, um local emblemático de onde incontáveis africanos foram forçados a embarcar em navios negreiros. Este monumento servirá como um lembrete solene do passado e um símbolo de boas-vindas para os descendentes que retornam.
Outras iniciativas incluem a criação de uma réplica detalhada de um navio do século XVIII que transportava pessoas escravizadas, adornada com esculturas que retratam quase 300 cativos, e a inauguração de um Museu Internacional da Memória e da Escravidão. Este museu será instalado na antiga residência de Francisco Felix de Souza, uma figura proeminente no tráfico de pessoas nos séculos XVIII e XIX, consolidando o compromisso do Benin em preservar e educar sobre sua complexa história.
Embaixadores Globais e Reconhecimento de Celebridades
Para amplificar a mensagem do programa e fortalecer sua ressonância internacional, o Presidente Talon recrutou personalidades de renome. O cineasta Spike Lee e sua esposa, Tonya Lee Lewis, foram nomeados embaixadores da iniciativa para a comunidade afro-americana, desempenhando um papel crucial na divulgação da visão do Benin. Lee, emocionado, transmitiu a mensagem: "Nossos irmãos e irmãs em Benin estão nos dizendo: voltem para casa, recebam-nos em casa, voltem para a terra natal. Voltem para onde estão suas raízes".
O alcance do programa também foi notavelmente demonstrado pela participação da estrela norte-americana de R&B Ciara. Em julho de 2025, ela se tornou uma das primeiras beneficiárias de destaque da cidadania beninense. Sua presença no país foi marcada por uma apresentação memorável em Ouidah, como parte de um festival anual dedicado ao vodu, solidificando o vínculo entre a diáspora e a cultura ancestral. Seu marido, o quarterback de futebol americano Russell Wilson, também esteve presente e manifestou o desejo de se tornar cidadão beninense em breve, reforçando o crescente interesse e a visibilidade global do programa.
Em sua totalidade, o programa "My Afro Origins" do Benin transcende a mera oferta de documentos. Ele representa um convite transformador para a cura, a redescoberta e a construção de um futuro que honra o passado, posicionando o Benin como um farol de esperança e um ponto de retorno para a diáspora africana em todo o mundo.

